Oito milhões de pessoas em várias plataformas, 12 milhões de euros em receita e nenhum site de notícias tradicional. Essa é a Be Water, empresa italiana de mídia que está construindo uma audiência voltada para áudio e vídeo enquanto a maioria dos veículos tradicionais ainda debate impresso versus digital. Um artigo recente do Reuters Institute sobre a Be Water vale a leitura, mas quero questionar algo que a cobertura sugere nas entrelinhas: que abandonar o site é a lição a tirar.
Não é.
A lição é que conteúdo e infraestrutura são problemas distintos. A Be Water resolveu o problema do conteúdo indo até onde o público jovem já estava. Mas o problema da infraestrutura não desaparece só porque o seu conteúdo vive no Spotify, no Instagram ou no YouTube. Ele se torna mais complexo. E para a maioria das redações com as quais trabalho, especialmente as que servem comunidades locais e imigrantes, subestimar isso é um erro caro.
A audiência da plataforma não é a sua audiência
Quando o seu conteúdo vive em plataformas de terceiros, é a plataforma que controla o relacionamento. Você recebe impressões, reproduções, contagens de seguidores. O que você não recebe é um endereço de e-mail, uma forma de pagamento ou qualquer continuidade se o algoritmo mudar ou a plataforma alterar seus termos. Isso não é hipotético. Já aconteceu com redações que construíram tudo no Facebook, no Twitter, no Apple News. O padrão se repete.
O conteúdo em áudio e vídeo é excelente para o topo do funil. Ele alcança pessoas que jamais buscariam um site de notícias por conta própria. Mas em algum momento, a redação precisa converter esse alcance em algo que ela realmente possua. Essa conversão acontece na web. Acontece em uma página de destino, um formulário de associação, um cadastro de newsletter. Nada disso funciona se a presença web for tratada como um detalhe secundário.
Vejo isso com frequência em veículos que fazem um jornalismo genuinamente bom. Números sólidos no podcast, confiança real da comunidade, e então um site que torna quase impossível assinar, doar ou até entender o que o veículo faz. A audiência existe. A infraestrutura para captá-la, não.
Para que serve o site, de verdade
Se o seu conteúdo principal é em áudio ou vídeo, o seu site não é um hub de conteúdo. Pare de tratá-lo como tal. Um site que tenta espelhar seu feed de podcast, seu grid do Instagram e seu arquivo de newsletters não está fazendo nenhuma dessas coisas bem.
Um site para uma redação com foco em áudio ou vídeo tem três funções. Primeiro, ele converte. Alguém ouve o seu podcast, pesquisa o veículo e chega ao site. Essa visita deve terminar com um e-mail cadastrado ou uma assinatura. Tudo na página deve apoiar esse objetivo. Segundo, ele arquiva. O episódio de dois anos atrás ainda é encontrável por busca. Um ouvinte quer compartilhá-lo com alguém que não usa o mesmo aplicativo de podcast. A web é onde esse link existe. Terceiro, ele confere legitimidade. Fundações, parceiros institucionais e grandes doadores vão te pesquisar. Um site quebrado ou esquelético sinaliza que você não pensou seriamente na própria infraestrutura. Essa impressão importa.
Nenhuma dessas funções exige um site de notícias tradicional com uma homepage cheia de manchetes. Exige um site que seja intencional sobre o que está ali para fazer.
A mídia comunitária tem ainda mais a perder
O exemplo da Be Water é instrutivo em parte porque é italiano e em parte porque o público deles tende a ser jovem, mas não enfrenta barreiras de idioma ou de acesso. Para veículos que atendem comunidades imigrantes, os riscos de infraestrutura são maiores.
Um veículo como El Tímpano alcança públicos que consomem notícias pelo WhatsApp, pelo rádio, por mensagens de texto. Isso não é um problema a resolver. É uma audiência fazendo exatamente o que faz sentido para ela. Mas a web ainda precisa funcionar nos momentos em que importa: quando alguém precisa encontrar um recurso que o veículo cobriu, quando um membro da comunidade quer compartilhar uma matéria com um assistente social ou professor, quando um leitor em outra cidade quer apoiar o veículo financeiramente.
Esses são problemas da web. Ser um veículo focado em áudio ou em WhatsApp não os faz desaparecer. Só torna mais fácil ignorá-los até que eles te custem algo real.
A pergunta que vale fazer agora
Se alguém encontra o seu veículo hoje por meio de uma plataforma que já usa, o que acontece a seguir? Essa pessoa consegue assinar a sua newsletter pelo celular em menos de trinta segundos? Consegue se tornar membro sem precisar criar uma conta antes? Consegue encontrar aquele episódio ou vídeo que lembra vagamente de ter visto há seis meses?
Se a resposta a qualquer uma dessas perguntas for não ou talvez, isso é um problema da web. O formato do seu conteúdo não muda isso. Só muda quais partes do site são mais importantes e quais você pode parar de se preocupar.
Adotar o áudio ou o vídeo como formato principal é uma estratégia editorial e de audiência legítima. Mas a infraestrutura precisa acompanhar a estratégia, não ficar para trás. A maioria das redações com as quais converso resolveu o lado do conteúdo mais rápido do que o lado da web. Essa lacuna é por onde os leitores escapam.
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